ELE TOMOU O TREM.
Com sua bagagem ele tomou o trem.
Partiu da primeira estação com um sonho e uma vontade de que
a chegada final fosse vitoriosa. Partiu o trem que já vinha de outras estações.
Mas a sua viagem inicial era agora. Não sabia em quantas paradas ele iria
descer e ter que tomar de novo o trem. E assim foi.
TOMOU O TREM.
Quando o trem partiu ele viu que havia pessoas de todas as
idades de todos os tipos e de todas as esperanças. Cada uma com a sua mochila
como bagagem. Umas de grandes mochilas outras de mochilas vazias.
Durante a viagem que não se sabe quanto tempo iria demorar,
dias, meses, anos e muitos anos, essa era a sua viagem.
A primeira estação que ele viu desceu muitos e muitos.
Subiram como continuação da viagem ou como o início de outra viagem, outros
tantos.
TOMARAM O TREM.
Neste infinito percurso, se desenrolava uma infinidade de
histórias, cada um de cada um.
Ele sonhava os seus sonhos que seriam realizados e outros
que iam ficando em cada estação que passava. Os grupos iam se formando conforme
o interesse de cada um. Uns queriam ser líderes outros simplesmente lhes
bastavam a comodidade de não se envolver em coisa alguma desde que tivessem um
bom banco para sentar e alimento para saciar a sua fome.
O TREM ANDAVA INCESSANTEMENTE.
As pessoas conversavam entre si os assuntos mais
interessantes que lhes convinham.
Certos indivíduos de pouco caráter se aproximavam das
pessoas para tirar proveito. Fazia-se de bonzinhos, prestativos e até
subservientes. Se alguém lhe pedisse que na próxima estação descesse e fosse
comprar amendoins, este iria dando a impressão de que estava fazendo com o
maior prazer, quando na verdade estava planejando romper a barreira, a possível
barreira do “não”. Corriam até o risco de perder o trem. Mas geralmente seus
golpes eram certeiros. Eles costumavam elogiar as pessoas e de chamá-las de meu
amigo.
O TREM PASSAVA POR LONGAS PAISAGENS VERDEJANTES.
Cada pessoa olhava através da janela conforme o seu
paradigma. Uns comentavam que todo aquele verde era um colírio para os olhos;
era paz. Outros diziam que tudo aquilo podia ser aproveitado e construído
vários edifícios para que fosse dado emprego a muitos e dinheiro a poucos. Isso
levava horas de discussão.
Havia até quem dissesse que era um lugar para meditação e
construção de um grande templo.
O TREM CHEGAVA A MAIS UMA ESTAÇÃO. Ouviam-se os freios
ringirem contra os trilhos e o choque dos engates dos vagões.
Mais uma vez os passageiros entravam e saiam com suas
bagagens. Início para uns, final para outros.
ELE ESTAVA NO TREM DA VIDA.
Como sua simpatia e cultura interessavam aos outros
passageiros, ele era cheio de amigos de todos os tipos. Uns, fiel à amizade,
outros, fiel ao que ele possuía. Todos queriam estar com ele como o seu líder.
Em tudo que se falava, ele conseguia dizer alguma coisa. Principalmente no que
se tratava de assuntos ligados a convivência com as pessoas. Ele normalmente
bancava as conversas, sempre entre um copo d'água e outro. Todos se deliciavam
as suas interpretações e soluções da vida. Quando alguém lhe vinha contar
alguma coisa pessoal, ele dava tanta atenção e opiniões boas, que as pessoas
quase que não lhe deixavam em paz. Era um tipo meio guru. Como se dizia era um
casa cheia.
MAS O TREM CONTINUAVA ANDANDO
e parando sempre nas estações da vida e deixando e recebendo
novos passageiros.
Quando algum pobre lhe estendia a mão, ele sempre que podia
doava alguma coisa. Quando não era somente dinheiro, dava algum alimento, roupa
e às vezes palavras para suportar aquele estilo de vida que muitas vezes era a
escolha do próprio indivíduo.
Havia pessoas que passavam no vagão em que ele estava e
sentia asco pelo seu comportamento. Ora, ele fazia coisas de deixar estas
pessoas com vontade, mas não se arriscaria a fazer por medo, vergonha ou
simplesmente por dar ouvido a opinião pública. Daí ouvia-se as críticas, tipo:
- ele é um irresponsável que não quer nada com a vida, só pensa em brincar e a
fazer coisas vergonhosas.
MAS O TREM CONTINUAVA A RODAR
sobre os trilhos da vida, continuamente...
Ele tanto fazia brincar com os adultos como com as crianças.
Essa talvez o entendesse melhor que os outros.
As pessoas que não gostavam da atitude dele não possuíam o
mesmo nível cultural dele. Geralmente eram pessoas preconceituosas com um nível
de preconceito elevado a respeito de várias áreas entre elas política e
religião. E religião sim. Aí é que pegava fogo. Era aquele medo terrível do
pecado e de ir para o inferno.
Só para ilustrar, ele costumava a dizer que Deus não estava
preocupado com o tipo de oração, reza, ou seja, lá o que for, pois antes que
qualquer um de nós pensasse em qualquer forma, Deus já sabia a nossa intenção.
Então era bastante ser direto a Deus e um “pai nosso” já era mais que
suficiente.
Isso fazia com que as pessoas o tratassem como herege.
O TREM PAROU
De repente, uma das pessoas que estava ali feliz com a
viagem desembarca de repente, sem ninguém esperar. Todos ficam chocados. Uns
choram, outros lamentam a saída tão cedo. Muitos tentam explicar essa partida tão
rápida. Cada um com a sua teoria, com a sua religião, mas não consegue explicar
realmente o que aconteceu. Ninguém tem provas concretas para onde essa pessoa
tão jovem foi parar. Nem esperou a estação chegar. Partiu muito rápido e para o
desconhecido. Deixou pessoas amigas, parentes, conhecidos, todos desapontados.
Mas foi assim mesmo.
O TREM PARTIA EM DIREÇÃO A PRÓXIMA PARADA.
Era só mais uma estação.
Muita gente que estava ali tão bem sentada e achando tão boa
a viagem, já estava designada a descer na próxima parada. Era a sua vez de
descer ou esperar por outro trem. Nem sempre quando descem, descem com os
amigos e com os parentes. Muitas vezes é abandonada na próxima estação a sua
própria sorte. Até que se erga e continue a sua viagem no próximo trem.
Talvez encontre novos amigos na estação que lhe dê força e
retome a sua ida no trem. Nessa hora vai ser muito difícil. Ou vai ser
desprezada por todos ou vai aparecer pessoas que ajude, mas com muito receio.
Como se fracasso fosse contagioso. São pessoas que ajudam, mas querem que você
siga exatamente os passos por ela determinados com se este fosse o único método
certo e correto de todas as verdades do universo. São os pseudos líderes de
papel. Geralmente são arrogantes ou mandões ardilosos que na sua sutileza nos
obriga a seguir os seus passos sem outra opção. Caso contrário nos afunda mais.
Além de não ajudar informam aos outros da estação que seria perigoso tomarmos o
trem.
Mas os trens continuam a passar nas estações. Um de cada
vez. Um sempre atrás do outro.
VOLTEMOS AO PRIMEIRO TREM DA NOSSA HISTÓRIA.
As pessoas já estão esquecendo dos primeiros incidentes. Uns
lembram contando as desventuras das pessoas que não fizeram certo como devia
ser (?). Outros lembram as pessoas que descem de repente com uma missão e
pronto. Já estão justificadas com a piedade e já podem ir para o céu quando
chegar a sua vez. Quem sabe, até querer que o trem pare em sua homenagem.
Durante a viagem as pessoas trabalham, negociam, se divertem
ou fazem qualquer coisa para tornar significativa a sua viagem. Outros não saem
das suas poltronas, pois alguém de muito poder monetário patrocina esta sua
aventura do marasmo. São pessoas que possuem a capacidade de transformar o
inútil em nada. Mas no trem todos vivem a sua maneira com as suas aptidões.
Existem pessoas lá no trem que passou toda a viagem negociando dinheiro com as
pessoas. Ele só pensava em juros, taxas ou qualquer coisa que se relacionasse
com valores financeiros. Sempre se referia que tinha dez empregados. Eram os
dez algarismos arábicos.
Outros eram mais solidários com as pessoas. Eram chamados de
idiotas, socialistas, amigos dos pobres, babas e outros adjetivos mais. Eram os
que em vez de juntar, só pensavam em dividir. Nunca iriam ter nada na vida. Era
assim que eram observados.
O TREM PAROU EM MAIS UMA ESTAÇÃO.
Alguns desceram para comprar algo para si ou para vender
dentro do trem. É assim que se faz durante a viagem. Um, talvez cansado de
viver aquela vida sem nenhum objetivo prático de ganhar dinheiro, optou por uma
linha que para uns é designo de Deus e para outros é obra do demônio. Foi até a
uma livraria na estação e comprou uma bíblia daquelas que não há nenhuma
interpretação no rodapé. Das simples. Voltou ao trem e começou a pregar uma
nova maneira de interpretar a sua religiosidade. Começou a convocar alguns
amigos, os mais conhecidos e os que através do medo o considerou como um
enviado para aquela viagem magnífica de trem. Falando em voz alta e
distribuindo mensagens, convocava a todos para irem aos céus. Antes, porém
todos tinham que dar uma parte do seu esforço material, podia ser em dinheiro,
para que fosse construída a grande idéia da sapiência dividam. Todos aqueles
que estivessem doando dez por cento do que possuía, estaria cumprindo a grande
obra da Sapiência Divina. Deus olharia com mais carinho para aquelas que se
propusessem a fazer as tais doações. Aproveitando as inúmeras interpretações
que se faz da bíblia, inclusive daquelas em que se lê um parágrafo de um livro,
juntamente com o parágrafo de outro livro, se consegue fazer uma interpretação
daquilo que se quer incutir nas pessoas mais influenciáveis, que há aos montes
em cada vagão. Com isso as pessoas iam ficando mais envolvidas e começavam a
achar que todo o trem estava perdido e que eles eram os escolhidos. Só que
neste ínterim o líder religioso estava além de adquirindo poderes sobre as
pessoas estava se enriquecendo e com isso almejando poderes políticos também. A
sua meta agora era conduzir o destino do trem. Talvez mandar construir uns novos
trilhos para que o trem tomasse o destino de novas estações.
E ENQUANTO ISSO, O TREM DISPARAVA EM DIREÇÃO A SEU
VERDADEIRO DESTINO.
Havia pessoas com as mais variadas intenções. Pessoas com
idéias políticas de que ao assumirem tais postos deixariam todos em um
verdadeiro paraíso. Essas são pessoas especiais que são capazes de convencer de
uma só vez, milhares de eleitores com suas idéias mirabolantes. Se duvidar eles
querem convencer a todo comboio. Eles prometem como sempre emprego, assistência
médica de graça, mais transportes subsidiados, e muitas novelas na TV.
MAS O TREM É IMPLACÁVEL NO SEU TRAJETO.
Não pára, continua em frente. Cada estação é uma
oportunidade ou um fracasso de cada um que fica ou que vai.
Muitas pessoas que estão bem na viagem, resolvem descer e
parar em alguma estação, na intenção de que é ali a sua parada. Ledo engano.
Aquela estação seria uma provação na sua vida, se não for para o resto da vida.
Escapam-lhes os amigos, as oportunidades, enfim o sossego.
Passa a ser considerado aquele que não teve mais coragem de
viajar para o sucesso. Ora, e aquele que desceu e tudo deu certo? Qual seria a
explicação? Talvez algum dia essa explicação convença a pessoa que se deu bem
na vida. Ele logo vai dizer que foi muito trabalho e muita dedicação que fez o
seu sucesso. Mas o outro, provavelmente, não vai se conformar, pois talvez
tenha se dedicado o tanto quanto, mas na hora errada.
Vai aparecer aquele que toma partido para um em detrimento
do outro. Acusa-o até a falta de fé.
É comum até junto a sua poltrona, aquele que lhe conhece
muito bem e que em vez de falar coisas boas para que haja motivação para se
reerguer, faz uma crítica implacável que o desestimula para toda vida.
Esses são os donos da verdade, o seu universo é congelado,
sólido. Seu paradigma é irredutível. Geralmente são pessoas que sofrem, mas não
dá o braço a torcer. E nem tão pouco liga para o destino do trem. Não toma
conhecimento do destino e do tempo da viagem. Só lhe interessa a rigidez do seu
ponto de vista.
Por onde o trem passava se via; ora terras férteis e
verdejantes ora regiões insólitas com a impressão de que a água nunca passou
por ali.
A impressão que dava era de que as pessoas respondiam na sua
psique aquela mesma impressão. Talvez lembrassem dos momentos da vida em que há
em certas épocas que a vida é um paraíso e em seguida torna-se insalubre e
tórrido onde tudo é de uma só cor. A cor da tristeza.
Outra vez a cena da fertilidade do verde e o céu azul-anil,
tornassem as pessoas mais alegres e mais positivas não só admirando as cores
como o perfume exalado pela vegetação. Aquele cheiro de viço. Cheiro de
natureza.
Enquanto o trem seguia nesta aventura de cenários os
passageiros continuavam na sua aventura de conquistas dos seus objetivos.
Sempre aparecia pessoas que a troco de oportunidades e dinheiro, se
prontificava a ensinar qualquer coisa que fosse possível ser transmitido para
os descendentes. Com a quantidade de informações que a cada estação ia se
acumulando mais pessoas estavam ansiosas de adquiri-las. Eram professores de
idiomas, sim os idiomas mais comerciais e os que estavam na moda. Cursos
tradicionais e aqueles que servem para que as pessoas se sintam como se fossem
realmente pessoas cultas e informadas. Mesmo que não houvesse a menor pretensão
de usá-las. Tipo, curso universitário para cuidar do lar.
Durante a viagem era comum pessoas de uns trens virem para
outros trens. Estes eram os estrangeiros. Uns vinham com a intenção de
conhecimentos a respeito da cultura dos outros. Outros queriam apenas passear e
se divertir aproveitando o poder de compra das suas moedas. Pois costumavam
comprar os produtos dos trens de cá e enriquecer os trens de lá, garantido que
estavam fazendo bons negócios. Usando meios de que a moeda de cá sempre ficasse
com baixo poder aquisitivo. Isso era o monopólio dos trens de ouro.
MAS A VIAGEM AINDA CONTINUAVA, ONDE SE OUVIAM AS BATIDAS DAS
EMENDAS DOS TRILHOS.
O famoso som onomatopaico do dem-dem, tem-tem, sem parar.
Principalmente quando se passava pelos intermináveis túneis, transpassando as
montanhas.
Ele se divertia e gozava todas paradas e saídas que o trem
fazia. Não esperava que a sua primeira saída do trem estava por vir. Todos os
amigos lhe cortejava. Ele pensava que sempre seria assim. Quantos amigos são
bons. Não preciso de mais nada. Muitas vezes era só pensar em alguém que vinha
logo ao seu encontro. Não sabia ele que não era mera coincidência, era muita
coincidência e muita mesmo. A experiência diz que amizade só existe quando ela
é espiritual a amizade que é estimulada por bens materiais é puramente
interesse. Quando a primeira pode ser utopia e a segunda necessidade.
MAS O TREM CONTINUA A RODAR E A SEGUIR EM FRENTE...