sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O REVERSO DA FÁBULA

 A FORMIGA E A CIGARRA (1990)


É certo que, quem escreveu essa fábula, há muitos anos atrás, talvez não tivesse a intenção de ressaltar, a idéia de que o trabalho insistente, cansativo e como único objetivo de provisão, é que era o correto.

Quando criança e adolescente ouvi muito dos mais velhos, de que a forma correta de trabalho era aquela. Mesmo que fosse insalubre, cansativa, sem graça, uma porcaria, não importava. E sim, no fim do mês, o salário.
A era da industrialização.
Costumava-se a dizer e a pregar aos ventos, de que fulano estudou queimando as pestanas no candeeiro e foi ser um funcionário público. Isso era uma atividade excepcional, pois no fim da vida, tornar-se-ia um grande aposentado, e viveria o resto da vida feliz.

O tempo foi passando e eu acreditando que esta era a forma de vida melhor que se podia acreditar. Apesar de no íntimo perceber algo diferente, deixei-me levar às opiniões dos mais velhos. Ora, os mais velhos sempre estão certos! Ou não?

A coisa não é bem assim.
Existem velhos bons e velhos pouco confiáveis. O problema é saber quem. Dentro de nós, algo conversa com a gente. Uns chamam de consciência, outros a voz de Deus. Quem está com a razão, os experientes ou esta voz insistente?

Certa vez eu comprei uma máquina de cortar madeira, chamada de tico-tico. Era uma serra que cortava praticamente tudo, mas meu pai quando soube do preço que eu paguei, retrucou me dizendo: “Por que não comprou um bom serrote?” Ora, no seu universo não existiam serras tico-tico, e sim um bom serrote. Este é o grande problema, este era o seu paradigma!

Pouco tempo atrás, as pessoas eram consideradas competentes quando sabiam datilografar a 180 ou 200 toques por minuto. Mesmo que escrevesse algumas palavras erradas. Mas era uma velocidade excepcional. O indivíduo era considerado um exímio datilógrafo. Facilmente arranjava um emprego e se sentia uma pessoa importante no seu meio. Pobres dos datilógrafos diante dos digitadores de hoje. Mas apesar dos computadores corrigirem automaticamente os seus erros, não dá, hoje, o mesmo valor que se dava aos datilógrafos. E o mundo assim, vai caminhando, com os seus novos paradigmas.

Hoje o que nós, os mais velhos, pensamos que se trata de um avanço, no futuro não passará de uma coisa corriqueira. A única coisa importante que se guarda na velhice é a experiência de vida, poderosa arma para tomar decisões. Mas mesmo assim, deve ser feita com muita cautela para não gerar muita expectativa.

Certa vez, uma pessoa mais velha que eu, me disse que nunca o alcançaria em relação a sua experiência. Pois ele sempre estaria à minha frente. Ledo engano. O jovem vai muito mais além do que o velho. Ele vai ao futuro e o velho pára no meio do caminho. Apesar de algumas vezes ter feito história.

Quando eu ouvi aquela fábula de que a formiga trabalhava intensamente, enquanto a cigarra vivia a tocar, eu me lembro que tocar também é um trabalho. Ora, a formiga trabalhava, mas a cigarra devia tocar também para a formiga. E a cigarra era talvez o som ambiente nos locais de trabalho. Algumas cigarras também estão ali tocando enquanto muitas formigas estão trabalhando somente para receber o salário no fim do mês. E a cigarra, ali, está trabalhando, fazendo o que gosta e recebendo o seu salário. Talvez não seja tão bem pago quanto à formiga operária ou o gerente, mas não merece o desprezo que a fábula lhe dá.

Na vida existe uma coisa importante que é a felicidade de cada dia. Trabalhar é muito importante. Mas seguramente, mais importante é ganhar a vida com aquilo que a gente gosta. Não há estresse em demasia. Não precisa gastar dinheiro com psicoterapias. Não precisa chegar em casa de mau humor. Pois afinal ninguém gosta de você, quando você está nos altos e baixos. A cigarra morreu de frio, talvez porque não havia assistência social. Porque vivia em um país onde os interesses eram somente para poucos. Talvez para o plantio da soja, do café, dos dólares enviados para a Suíça. Ou onde se valorizasse apenas os que têm cultura oficial. Esquecendo que nenhuma escola dá ao indivíduo a capacidade de decisão e sim ele já trás consigo.

Quando a gente acha que ter um patrão é tudo, estamos simplesmente delegando o nosso destino a alguém. Será que o patrão tem tempo para isso? Afinal ele tem a vida dele para tocar pra frente. Provavelmente o patrão é uma pessoa que está conquistando aquilo que ele deseja na vida. Quem sabe? Mais uma cigarra!
O sistema capitalista, por exemplo, ofereceu as pessoas uma forma rápida e segura de ganhar dinheiro para quando estiver perto de morrer. Chama-se aposentadoria. O individuo formiga, se acha capaz de produzir, produz, produz bastante, enriquece o patrão, depois morre. Talvez até se aposente. O indivíduo cigarra corre o risco de morrer de frio, mas faz o que gosta e tem a chance de não morrer de frio.
O individuo cigarra também estudou para aprender a tocar sua viola. E foi numa escola especial que nem sempre precisa de professores e sim de exemplos, emoções e um paradigma diferenciado dos outros. Pois foge de todos os padrões pré-estabelecidos.
Vamos ver uns grandes exemplos de cigarras: Bach – naquela época a música estava em formação acadêmica, afinal quem estruturou os tons foi Johan Sebastian Bach. Anos depois o Sr. Beethoven fez a maior sinfonia do mundo. A Nona. E uns quarenta anos atrás os Beatles conquistaram o mundo com novas harmonias e um novo estilo de cantar.

E viva as cigarras! Ou vivam as cigarras?!

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