A FORMIGA E A CIGARRA (1990)
É certo que, quem
escreveu essa fábula, há muitos anos atrás, talvez não tivesse a intenção de
ressaltar, a idéia de que o trabalho insistente, cansativo e como único
objetivo de provisão, é que era o correto.
Quando criança e adolescente ouvi
muito dos mais velhos, de que a forma correta de trabalho era aquela. Mesmo que
fosse insalubre, cansativa, sem graça, uma porcaria, não importava. E sim, no
fim do mês, o salário.
A era da industrialização.
Costumava-se a dizer e a pregar
aos ventos, de que fulano estudou queimando as pestanas no candeeiro e foi ser
um funcionário público. Isso era uma atividade excepcional, pois no fim da
vida, tornar-se-ia um grande aposentado, e viveria o resto da vida feliz.
O tempo foi passando e eu
acreditando que esta era a forma de vida melhor que se podia acreditar. Apesar
de no íntimo perceber algo diferente, deixei-me levar às opiniões dos mais
velhos. Ora, os mais velhos sempre estão certos! Ou não?
A coisa não é bem assim.
Existem velhos bons e velhos
pouco confiáveis. O problema é saber quem. Dentro de nós, algo conversa com a
gente. Uns chamam de consciência, outros a voz de Deus. Quem está com a razão,
os experientes ou esta voz insistente?
Certa vez eu comprei uma máquina
de cortar madeira, chamada de tico-tico. Era uma serra que cortava praticamente
tudo, mas meu pai quando soube do preço que eu paguei, retrucou me dizendo:
“Por que não comprou um bom serrote?” Ora, no seu universo não existiam serras
tico-tico, e sim um bom serrote. Este é o grande problema, este era o seu
paradigma!
Pouco tempo atrás, as pessoas
eram consideradas competentes quando sabiam datilografar a 180 ou 200 toques
por minuto. Mesmo que escrevesse algumas palavras erradas. Mas era uma velocidade
excepcional. O indivíduo era considerado um exímio datilógrafo. Facilmente
arranjava um emprego e se sentia uma pessoa importante no seu meio. Pobres dos
datilógrafos diante dos digitadores de hoje. Mas apesar dos computadores
corrigirem automaticamente os seus erros, não dá, hoje, o mesmo valor que se
dava aos datilógrafos. E o mundo assim, vai caminhando, com os seus novos
paradigmas.
Hoje o que nós, os mais velhos,
pensamos que se trata de um avanço, no futuro não passará de uma coisa corriqueira.
A única coisa importante que se guarda na velhice é a experiência de vida,
poderosa arma para tomar decisões. Mas mesmo assim, deve ser feita com muita
cautela para não gerar muita expectativa.
Certa vez, uma pessoa mais velha
que eu, me disse que nunca o alcançaria em relação a sua experiência. Pois ele
sempre estaria à minha frente. Ledo engano. O jovem vai muito mais além do que
o velho. Ele vai ao futuro e o velho pára no meio do caminho. Apesar de algumas
vezes ter feito história.
Quando eu ouvi aquela fábula de
que a formiga trabalhava intensamente, enquanto a cigarra vivia a tocar, eu me
lembro que tocar também é um trabalho. Ora, a formiga trabalhava, mas a cigarra
devia tocar também para a formiga. E a cigarra era talvez o som ambiente nos locais
de trabalho. Algumas cigarras também estão ali tocando enquanto muitas formigas
estão trabalhando somente para receber o salário no fim do mês. E a cigarra,
ali, está trabalhando, fazendo o que gosta e recebendo o seu salário. Talvez
não seja tão bem pago quanto à formiga operária ou o gerente, mas não merece o
desprezo que a fábula lhe dá.
Na vida existe uma coisa
importante que é a felicidade de cada dia. Trabalhar é muito importante. Mas
seguramente, mais importante é ganhar a vida com aquilo que a gente gosta. Não
há estresse em demasia.
Não precisa gastar dinheiro com psicoterapias. Não precisa
chegar em casa de mau humor. Pois afinal ninguém gosta de você, quando você
está nos altos e baixos. A cigarra morreu de frio, talvez porque não havia assistência
social. Porque vivia em um país onde os interesses eram somente para poucos.
Talvez para o plantio da soja, do café, dos dólares enviados para a Suíça. Ou
onde se valorizasse apenas os que têm cultura oficial. Esquecendo que nenhuma
escola dá ao indivíduo a capacidade de decisão e sim ele já trás consigo.
Quando a gente acha que ter um
patrão é tudo, estamos simplesmente delegando o nosso destino a alguém. Será
que o patrão tem tempo para isso? Afinal ele tem a vida dele para tocar pra
frente. Provavelmente o patrão é uma pessoa que está conquistando aquilo que
ele deseja na vida. Quem sabe? Mais uma cigarra!
O sistema capitalista, por
exemplo, ofereceu as pessoas uma forma rápida e segura de ganhar dinheiro para
quando estiver perto de morrer. Chama-se aposentadoria. O individuo formiga, se
acha capaz de produzir, produz, produz bastante, enriquece o patrão, depois
morre. Talvez até se aposente. O indivíduo cigarra corre o risco de morrer de
frio, mas faz o que gosta e tem a chance de não morrer de frio.
O individuo cigarra também
estudou para aprender a tocar sua viola. E foi numa escola especial que nem
sempre precisa de professores e sim de exemplos, emoções e um paradigma
diferenciado dos outros. Pois foge de todos os padrões pré-estabelecidos.
Vamos ver uns grandes exemplos de
cigarras: Bach – naquela época a música estava em formação acadêmica, afinal
quem estruturou os tons foi Johan Sebastian Bach. Anos depois o Sr. Beethoven
fez a maior sinfonia do mundo. A Nona. E uns quarenta anos atrás os Beatles
conquistaram o mundo com novas harmonias e um novo estilo de cantar.
E viva as cigarras! Ou vivam as
cigarras?!

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