sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

COMO FORAM OS ANISTIADOS, ANOS DE INDECISÃO E FRUSTRAÇÃO.



Daria, se quisesse, fazer qualquer comentário de qualquer tipo que explicaria essa situação. Imagine um furacão, de repente, a destruir todos os seus sonhos e lhe tornar, de uma dia para outro, um indivíduo, visto pela sociedade, como um preguiçoso, que só quer boa vida, sem trabalhar e viver como um parasita as custas das pessoas trabalhadoras que conseguiram o que tem com muito esforço.
É equivalente a um murro de um lutador de boxe, peso-pesado, sem esperar. Pronto. Nocauteou-o. Muitos ficaram saltitantes de alegria. Aqueles que diziam, “tô contigo e não abro”. Os amigos “mosca”.
Qualquer comparação que se fizer com os anistiados se assemelha com a situação em que foi vivida aí em cima. É como uma pessoa no deserto, perdida, apenas com uma garrafa d’água na mão.  Não sabe se bebe ou guarda para depois.
Foi uma bomba que explodiu dentro de casa, daquelas bem potentes, que quebrou, o respeito, o relacionamento, a consideração. E o indivíduo para poder suportar, estou falando dos que sobreviveram, teve que procurar uma muleta. Os botecos onde vendiam fiado, cachaça e cerveja, fora as piadinhas de que não estava trabalhando porque não queria nada com a vida. E um sorriso amarelo servia de disfarce pela vergonha que se estava sentindo.
E os filhos, adolescentes, a vergonha deles em relação aos colegas que tinham pais empregados? Aquela pergunta ferina: “Teu pai trabalha aonde?” E no dia em que os filhos tiveram que sair do colégio porque não tinha dinheiro par pagar as prestações do colégio? E a festa de 15 anos? Terrível, improvisada! E a eterna satisfação que se tem a dar a sociedade? O pai um bebum que não podia ver uma garrafa em pé que queria derrubá-la. E a mãe se fazendo de que não entendia nada par poder conseguir disfarçar.
Com certeza o causador de toda essa miséria, estava sorridente levantando o braço para poder mostrar aos seus discípulos que era potente e correto. Seria mais um pseudo Hitler disfarçado, egocêntrico iludindo aos demais? Não sei. Só sei que foi um fim de mundo! Como um tiro em que só depois é que se sabe que foi atingido devido à rapidez do fato.
Ainda bem que o  ser humano se adapta ao ambiente para poder suportar a dor. Aprender a ser humilhado sem perder as estribeiras. Aprender a ser escanteado por todos sem precisar de chorar, pois sorrindo se vai levando toda a desgraça nas costas. Nestes momentos, o máximo que as pessoas podem ter, é pena. (Mas isso não ajuda, pois o que se precisa é de uma mão de apoio.) Ou então aquela conversa de que tudo passa. Pois assim o aconselhador se exime de ter que ajudar materialmente. Fica só nos conselhos que é de graça e não lhe tira o dinheiro de comprar uma jóia ou um dia num restaurante.
Quando não, se dá uma cestinha de alimentos comprada ali no supermercado juntamente com uns conselhos maravilhosos; “olhe isso aqui é para lhe ajudar enquanto você arruma um emprego. Pode ser um emprego de servente. Pois se começa assim.” O humilhado responde com um sorriso para não ofender. Se não pode perder a possibilidade de ganhar outra cestinha. Pois quem mais humilha é a fome.
Mas a força do anistiado ainda é maior que a do aconselhador. Como um animal abatido e rodeado de hienas sorrindo e salivando a sua desgraça, lhe oferecem soluções mirabolantes. Advogados que resolvem o problema rapidamente em alguns dias ou meses. Basta pagar 500 reais. Ora o desgraçado já está no fim da linha, onde diabo vai arrumar essa fortuna toda, se um real já resolve muita coisa na sua vida? Dá pra comprar o pão. Pois ontem comeu farinha com colorau e sal.
Vive rodeando um sindicato na esperança de que algum dos diretores descubra a verdadeira fórmula da salvação. Reuniões com um grupo de pessoas com uma idade não aceitável para se empregar em qualquer lugar deste país, onde cada um conta a sua história, mas não se lembra de que a união faz a força. Aparecem até histórias semelhantes ao “Guiso no pescoço do gato”. Todos tem uma idéia infalível, mas não sabe como executá-la.
“Manda dez pessoas para o distrito federal para gritar e chamar a atenção.” Aí no outro dia está tudo resolvido. O presidente assina um decreto e todos voltam para o trabalho. Muito bem, quem financia as passagens de avião para ir ao distrito federal? “Não sei! O sindicato! Uma cotinha!” E por aí vai.
Mas a insistência de alguns heróis que acreditam que Deus não é seu empregado e sim seu instrutor, toca pra frente a sua luta que é de todos nós. Briga, reclama, se passa por chato, inconveniente, mas vai seguindo o seu paradigma de ajudar a si e aos outros que não tem mais força nem coragem. Vai com as esmolas para uma terra pouco conhecida, repleta de  hienas a espreita da sua desgraça. Com pouco ou nenhuma grana, disputa uma dormida em um banco da rodoviária para salvar os colegas que estão nas suas outras atividades, ou nos botecos, ou vagando em algum lugar esperando o milagre. O choro da traição lhe comove ao saber que foi mais uma vez expulso do convívio por não ter dinheiro par pagar uma pensão.
Deus olha lá de cima e espera para ver o desfecho de toda essa caminhada de um herói que só queira o seu emprego, a sua casa, o seu lar, os seus filhos dizendo papai, enfim o que todos têm direito.
Hoje os que tiveram sorte, deixaram o álcool como muleta para continuar esperançosos que o dia está chegando. Deixaram de se lamentar por achar que aqueles que não estão interessados no seu sucesso lhe façam alguma coisa de bom. Pois a luta é de cada um que somando as forças se luta para que toda essa agonia chegue ao fim.

Mas como uma guerra, muitos ficaram para traz. Morreram, porque chegou a sua hora, foram presos porque acreditaram que o caminho mais largo era o correto. Adoeceram porque não tiveram fé. Enfim Deus deu a cada um uma cruz com valores e medidas diferente para a sua capacidade. E os que sobraram foram os heróis dessa peleja. Mas sempre tem um maior na peleja; aquele que foi na frente e levantou a bandeira da liberdade e do perdão. Deus salve os anistiados deste país que foram condenados sem pecado!

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