Daria, se quisesse, fazer qualquer comentário de qualquer
tipo que explicaria essa situação. Imagine um furacão, de repente, a destruir
todos os seus sonhos e lhe tornar, de uma dia para outro, um indivíduo, visto
pela sociedade, como um preguiçoso, que só quer boa vida, sem trabalhar e viver
como um parasita as custas das pessoas trabalhadoras que conseguiram o que tem
com muito esforço.
É equivalente a um murro de um lutador de boxe, peso-pesado,
sem esperar. Pronto. Nocauteou-o. Muitos ficaram saltitantes de alegria.
Aqueles que diziam, “tô contigo e não abro”. Os amigos “mosca”.
Qualquer comparação que se fizer com os anistiados se
assemelha com a situação em que foi vivida aí em cima. É como uma pessoa no
deserto, perdida, apenas com uma garrafa d’água na mão. Não sabe se bebe ou guarda para depois.
Foi uma bomba que explodiu dentro de casa, daquelas bem
potentes, que quebrou, o respeito, o relacionamento, a consideração. E o
indivíduo para poder suportar, estou falando dos que sobreviveram, teve que
procurar uma muleta. Os botecos onde vendiam fiado, cachaça e cerveja, fora as
piadinhas de que não estava trabalhando porque não queria nada com a vida. E um
sorriso amarelo servia de disfarce pela vergonha que se estava sentindo.
E os filhos, adolescentes, a vergonha deles em relação aos
colegas que tinham pais empregados? Aquela pergunta ferina: “Teu pai trabalha
aonde?” E no dia em que os filhos tiveram que sair do colégio porque não tinha
dinheiro par pagar as prestações do colégio? E a festa de 15 anos? Terrível,
improvisada! E a eterna satisfação que se tem a dar a sociedade? O pai um bebum
que não podia ver uma garrafa em pé que queria derrubá-la. E a mãe se fazendo
de que não entendia nada par poder conseguir disfarçar.
Com certeza o causador de toda essa miséria, estava
sorridente levantando o braço para poder mostrar aos seus discípulos que era
potente e correto. Seria mais um pseudo Hitler disfarçado, egocêntrico iludindo
aos demais? Não sei. Só sei que foi um fim de mundo! Como um tiro em que só
depois é que se sabe que foi atingido devido à rapidez do fato.
Ainda bem que o ser
humano se adapta ao ambiente para poder suportar a dor. Aprender a ser
humilhado sem perder as estribeiras. Aprender a ser escanteado por todos sem
precisar de chorar, pois sorrindo se vai levando toda a desgraça nas costas.
Nestes momentos, o máximo que as pessoas podem ter, é pena. (Mas isso não
ajuda, pois o que se precisa é de uma mão de apoio.) Ou então aquela conversa
de que tudo passa. Pois assim o aconselhador se exime de ter que ajudar
materialmente. Fica só nos conselhos que é de graça e não lhe tira o dinheiro
de comprar uma jóia ou um dia num restaurante.
Quando não, se dá uma cestinha de alimentos comprada ali no
supermercado juntamente com uns conselhos maravilhosos; “olhe isso aqui é para
lhe ajudar enquanto você arruma um emprego. Pode ser um emprego de servente.
Pois se começa assim.” O humilhado responde com um sorriso para não ofender. Se
não pode perder a possibilidade de ganhar outra cestinha. Pois quem mais
humilha é a fome.
Mas a força do anistiado ainda é maior que a do
aconselhador. Como um animal abatido e rodeado de hienas sorrindo e salivando a
sua desgraça, lhe oferecem soluções mirabolantes. Advogados que resolvem o
problema rapidamente em alguns dias ou meses. Basta pagar 500 reais. Ora o
desgraçado já está no fim da linha, onde diabo vai arrumar essa fortuna toda,
se um real já resolve muita coisa na sua vida? Dá pra comprar o pão. Pois ontem
comeu farinha com colorau e sal.
Vive rodeando um sindicato na esperança de que algum dos
diretores descubra a verdadeira fórmula da salvação. Reuniões com um grupo de
pessoas com uma idade não aceitável para se empregar em qualquer lugar deste
país, onde cada um conta a sua história, mas não se lembra de que a união faz a
força. Aparecem até histórias semelhantes ao “Guiso no pescoço do gato”. Todos
tem uma idéia infalível, mas não sabe como executá-la.
“Manda dez pessoas para o distrito federal para gritar e
chamar a atenção.” Aí no outro dia está tudo resolvido. O presidente assina um
decreto e todos voltam para o trabalho. Muito bem, quem financia as passagens
de avião para ir ao distrito federal? “Não sei! O sindicato! Uma cotinha!” E
por aí vai.
Mas a insistência de alguns heróis que acreditam que Deus
não é seu empregado e sim seu instrutor, toca pra frente a sua luta que é de
todos nós. Briga, reclama, se passa por chato, inconveniente, mas vai seguindo
o seu paradigma de ajudar a si e aos outros que não tem mais força nem coragem.
Vai com as esmolas para uma terra pouco conhecida, repleta de hienas a espreita da sua desgraça. Com pouco
ou nenhuma grana, disputa uma dormida em um banco da rodoviária para salvar os
colegas que estão nas suas outras atividades, ou nos botecos, ou vagando em
algum lugar esperando o milagre. O choro da traição lhe comove ao saber que foi
mais uma vez expulso do convívio por não ter dinheiro par pagar uma pensão.
Deus olha lá de cima e espera para ver o desfecho de toda
essa caminhada de um herói que só queira o seu emprego, a sua casa, o seu lar,
os seus filhos dizendo papai, enfim o que todos têm direito.
Hoje os que tiveram sorte, deixaram o álcool como muleta
para continuar esperançosos que o dia está chegando. Deixaram de se lamentar
por achar que aqueles que não estão interessados no seu sucesso lhe façam
alguma coisa de bom. Pois a luta é de cada um que somando as forças se luta
para que toda essa agonia chegue ao fim.
Mas como uma guerra, muitos ficaram para traz. Morreram,
porque chegou a sua hora, foram presos porque acreditaram que o caminho mais
largo era o correto. Adoeceram porque não tiveram fé. Enfim Deus deu a cada um
uma cruz com valores e medidas diferente para a sua capacidade. E os que sobraram
foram os heróis dessa peleja. Mas sempre tem um maior na peleja; aquele que foi
na frente e levantou a bandeira da liberdade e do perdão. Deus salve os
anistiados deste país que foram condenados sem pecado!

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