Jornal da vida
Cada vez eu conto uma história
A HISTÓRIA DE UM HOMEM
Este jovem nasceu em abril de 1908. Descendente de
imigrantes de Portugal, veio para o Nordeste do Brasil, mais precisamente no
Estado de Alagoas, numa pequena cidade chamada de Porto da Rua. Aos 3 anos de
idade seus pais faleceram por motivos estranhos. Não se sabe exatamente como
foi, mas foram assassinados.
O rapaz e uma irmã foram criados separados sendo que ele
foi para a casa de um tio que o tratou como um escravo segundo as suas próprias
declarações.
Ele viveu a sua infância a trabalhar como um adulto a
carregar pesos excessivos até o ponto de adoecer de uma hérnia umbilical. Quando
não fazia aquilo que o tio exigia, era submetido a surras implacáveis até o
ponto de não suportar mais e suas costas dilaceradas era banhada com água e sal
para que evitasse inflamações posteriores. Quem lhe tratava das enfermidades
era a sua tia que era a tia de verdade. Pois o tio nada mais era do que o
marido da sua tia.
O tempo foi passando até que este jovem tornou-se um
adolescente e foi crescendo, quando resolveu fugir do engenho em que morava e
era submetido a trabalhos forçados e torturas.
Fugiu para Maceió, que devido as grandes dificuldades de
locomoção naquele tempo, se tornava uma cidade longe de ser alcançado. A sua
família não se importou e deixou que ele fosse embora.
Chegando lá em Maceió, Alagoas, procurou sozinho uma
saída para a sua vida. Topou ser ajudante de balcão. Naquela época não havia
carteira assinada de trabalho, não havia férias de 30 dias, enfim, não havia
direitos dos trabalhadores. O rapaz decidido em procurar uma vida melhor,
encarou o desafio.
Muito sofrimento sem onde morar, dormia num quarto
alugado entre vários colegas de trabalho. Comia o que aparecesse, tal como
sardinha enlatada com pão. Mas foi assim que ele começou a sua vida. Foi
desafiando a si próprio e conquistando cada dia da sua vida.
Foi soldado do exército brasileiro, serviu no tempo
necessário. Aprendeu a coisa mais importante para um homem. Disciplina, saber a
hora de avançar e a hora de para. Saber aonde chegou a hora de mudar de
direção.
Com muito sacrifício procurou estudar, pois era
analfabeto praticamente. Passou uma grande parte da sua vida de jovem num navio
pelo mundo afora, trabalhando e conhecendo o mundo. Conheceu toda a Europa,
parte da Ásia e praticamente toda a América. O que lhe mais deu saudade foram
as mulheres da Espanha. Guardou muitas lembranças que ficaram somente com ele
que nunca quis contar mas o deixava saudoso.
Foi para a escola e com os conhecimentos adquiridos
fez um teste e com a ajuda de um amigo se empregou num banco. Que foi até a
aposentadoria.
Homem, adulto, soube economizar dinheiro que lhe deu
chance para comprar casas. Pois nunca morou em casa alugada, a não ser num
quartinho quando jovem.
Conheceu uma jovem mulher com quem teve uma filha e mais
adiante conheceu outra com quem teve quatro filhos, sendo que um morreu de
meningite.
Sempre foi uma pessoa extremamente honesta. Sua
honestidade era tal que servia de comentários entre os amigos.
Nas suas farras que não foram poucas, depois de casas,
chegava em casa meio tocado e ia direto para cama só acordando no dia seguinte.
Mesmo assim sempre foi cumpridor dos seus deveres como pai e marido.
Era de certa forma rude na criação dos filhos. Era muito
rígido e não admitia nem que a criança gritasse dentro de casa. Quando estava
conversando com adultos não admitia a presença de crianças por perto. Enfim,
era a educação da época.
Sua vida nunca foi um mar de rosas. Sempre estava lutando
contra uma dificuldade financeira ou contra uma doença. Os seus filhos tiveram
doenças terríveis como Gripe espanhola, equisostomose e epilepsia. Mas
felizmente todos ficaram posteriormente com saúde.
Nunca foi de andar em grupo. Não gostava de muita amizade
e sempre dizia que: “Caranguejo por causa de amizade perdeu a cabeça.”
Não entendi a comparação, mas eu entendo que ele queria
dizer que certas amizades, é melhor ficar só.
Dizia que o homem não devia andar rindo muito quando
estivesse em grupo, com outros. Pois quem muito se abaixa o cu aparece.
Uma vez ou outra chamava uns dois “cabras” pra tomar um
conhaque com caju, e aí pronto. Cada uma ia para a sua casa.
Nunca foi visto em bar ou boteco. Mas nuca deixou de
tomar umas carraspanas vez ou outra. Só tinha um porém; nunca faltou nada em
casa. A cachaça era dominada por ele. Nunca tentou afogar as mágoas na cachaça.
Era sempre calado e conciso. Nunca vi chorando. E quando triste, baixava a
cabeça apenas. Era um homem de ferro.
Não foi nenhum exemplo pra ninguém, pois tinha os seus
defeitos com qualquer pessoa, mas nunca ninguém conseguiu apontá-lo na rua.
Um dia após muitos anos de vida foi embora daqui deixando
somente lembranças de que foi um homem honesto e cumpridor dos seus objetivos.
