Nascido em Portugal na cidade do Porto veio ainda criança
para o Brasil. Escolheu como cidade para morar o Recife. Talvez se tivesse
escolhido mesmo, pois ainda era criança, não fosse o Recife.
Foi criado e educado por parentes portugueses. Deram-lhe
a educação e o sotaque português. Foi criança e na sua adolescência estudou e
trabalhou. Na verdade trabalhou mais do que estudou, pois não havia tempo nem
hora como hoje temos. Não havia CLT, consequentemente, não havia leis
trabalhistas. Todos os jovens que se dedicavam ao trabalho eram escorraçados
pelos patrões e não podiam fazer nada. Muitos deles ameaçavam com violência.
Diante da necessidade de trabalhar para o próprio sustento, estes jovens davam
duro, quase escravos do seu patrão.
Feliz daquele que arranjava um emprego em que o patrão
investia no empregado. Muitos destes se davam tão bem que as vezes se tornavam
ricos tanto quanto o próprio patrão. Mas isso era coisa rara.
Um dia este jovem conseguiu um bom emprego. Trabalhava em
uma casa de frios. Nome que se dá a empresas que vendem alimentos em conserva.
Era aquele tipo de trabalho que tinha hora para começar mas nunca terminava na
hora certa. Quem quisesse estudar que arranjasse alguém que investisse em tal
atividade. Estudar era coisa de filhos de papai.
Mas aqueles que queriam se dar bem faziam das tripas
coração. Deixavam os domingos de folga para se dedicarem aos estudos. O ensino
naquela época exigia muito do aluno com cursos de 18 matérias. O aluno tinha
que dar conta de História, Geografia, Física, Matemática, Português, Inglês,
Francês, Latim, Grego, trabalhos manuais, Canto Orfeônico (música), religião,
Ciências, Biologia, Química, Filosofia, Desenho, Descritiva, sendo que todas estas
matérias eram essenciais, com provas orais e escritas e eram obrigados a passar
em todas as matérias para passar de ano.
Com tudo isso os alunos conseguiam e passavam. Quem não
queria estudar ficava para o serviço pesado. Como carregar açúcar.
Pois bem este jovem se dedicou ao trabalho e um pouco de
estudo e quando adulto resolveu casar. Era seu sonho, como o de qualquer um
cidadão naquela época; casar e ter muitos filhos. E foi assim que ele fez.
Conseguiu uma jovem filha de um ricaço e casou-se.
Homem trabalhador e gostava muito do lar. Homem de certa
forma ciumento. Não permitia muitos direitos a sua mulher. Mas a casa era cheia
de alegria, havia dinheiro para mantê-la com o seu trabalho. E os filhos vieram
como havia pensado. Muitos.
Mas como o destino é um caminho a percorrer sem reclamar.
A sua mulher achava que o seu dinheiro era interminável. Usou e abusou tanto
que este senhor perdeu o controle e após perder o emprego pela falência da
firma, se entregou a bebida. Coisa que não era de seu feitio. Homem educado e
cauteloso. Mas o poder do álcool é muito mais do que as suas forças, ele cedeu.
Fui-se degradando e se entregando cada vez mais ao vício.
Não procurou um amigo ou alguém que o ajudasse a se levantar. Foi muito
orgulhoso e achava que podia sozinho resolver a sua desgraça. Cada vez bebia
mais. A família foi-se deteriorando. Ninguém o respeitava mais. Daí quando
percebeu a que ponto chegou, já era tarde. Ninguém já não lhe respeitava mais
como um chefe de família. E sim no deboche o chamava de “bigodão”.
Anos e anos após ao deslize de se deixar ceder pelos
amigos e pelo álcool resolveu parar de beber. Não dava mais tempo. A doença já
tinha se instalado e a idade não lhe ajudava mais sucumbiu deixando muitas
saudades pela pessoa que era.
No auge do vício, Um certo “amigo” chegou a montar uma
mini barraca para vender cachaça bem perto de sua casa para que ele se
esbandalhasse todo o dia. Ele chegava tão embriagado em casa que certo dia deu
uns tiros nos familiares. Por sorte ninguém saiu ferido.
Estava ali entregue a sorte, um homem que antes era
exemplo de honestidade, bondade.
Quando eu o conheci, conversava muito com ele. Era uma
pessoa agradável, gostava muito de falar sobre as histórias da Bíblia e de sua
terra natal. Certa vez disse que gostava de mim porque eu lhe dava atenção e
conversava consigo. Pois na verdade, os outros, pouco lhe dava atenção a não
ser uma filha.
Este homem foi um senhor de posses. Quando ia passear com
a família, alugava um táxi, coisa que só os endinheirados da época é que podiam
fazer. Pois era um tipo de transporte muito caro para uma pessoa comum. Todos
viviam bem financeiramente durante o período em que ele trabalhava e mantinha
uma vida regrada.
Mas após o abuso do álcool, muita tristeza talvez, viu-se
em desgraça desapontando a todos. Não teve coragem de pedir ajuda a quem quer
que fosse para sair daquela frustração do desemprego e da falta de esperança.
Jamais um homem é por si só.
Somente Deus consegue isto.

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