terça-feira, 25 de agosto de 2015

A História de um Português

Nascido em Portugal na cidade do Porto veio ainda criança para o Brasil. Escolheu como cidade para morar o Recife. Talvez se tivesse escolhido mesmo, pois ainda era criança, não fosse o Recife.
Foi criado e educado por parentes portugueses. Deram-lhe a educação e o sotaque português. Foi criança e na sua adolescência estudou e trabalhou. Na verdade trabalhou mais do que estudou, pois não havia tempo nem hora como hoje temos. Não havia CLT, consequentemente, não havia leis trabalhistas. Todos os jovens que se dedicavam ao trabalho eram escorraçados pelos patrões e não podiam fazer nada. Muitos deles ameaçavam com violência. Diante da necessidade de trabalhar para o próprio sustento, estes jovens davam duro, quase escravos do seu patrão.
Feliz daquele que arranjava um emprego em que o patrão investia no empregado. Muitos destes se davam tão bem que as vezes se tornavam ricos tanto quanto o próprio patrão. Mas isso era coisa rara.
Um dia este jovem conseguiu um bom emprego. Trabalhava em uma casa de frios. Nome que se dá a empresas que vendem alimentos em conserva. Era aquele tipo de trabalho que tinha hora para começar mas nunca terminava na hora certa. Quem quisesse estudar que arranjasse alguém que investisse em tal atividade. Estudar era coisa de filhos de papai.
Mas aqueles que queriam se dar bem faziam das tripas coração. Deixavam os domingos de folga para se dedicarem aos estudos. O ensino naquela época exigia muito do aluno com cursos de 18 matérias. O aluno tinha que dar conta de História, Geografia, Física, Matemática, Português, Inglês, Francês, Latim, Grego, trabalhos manuais, Canto Orfeônico (música), religião, Ciências, Biologia, Química, Filosofia, Desenho, Descritiva, sendo que todas estas matérias eram essenciais, com provas orais e escritas e eram obrigados a passar em todas as matérias para passar de ano.
Com tudo isso os alunos conseguiam e passavam. Quem não queria estudar ficava para o serviço pesado. Como carregar açúcar.
Pois bem este jovem se dedicou ao trabalho e um pouco de estudo e quando adulto resolveu casar. Era seu sonho, como o de qualquer um cidadão naquela época; casar e ter muitos filhos. E foi assim que ele fez. Conseguiu uma jovem filha de um ricaço e casou-se.
Homem trabalhador e gostava muito do lar. Homem de certa forma ciumento. Não permitia muitos direitos a sua mulher. Mas a casa era cheia de alegria, havia dinheiro para mantê-la com o seu trabalho. E os filhos vieram como havia pensado. Muitos.
Mas como o destino é um caminho a percorrer sem reclamar. A sua mulher achava que o seu dinheiro era interminável. Usou e abusou tanto que este senhor perdeu o controle e após perder o emprego pela falência da firma, se entregou a bebida. Coisa que não era de seu feitio. Homem educado e cauteloso. Mas o poder do álcool é muito mais do que as suas forças, ele cedeu.
Fui-se degradando e se entregando cada vez mais ao vício. Não procurou um amigo ou alguém que o ajudasse a se levantar. Foi muito orgulhoso e achava que podia sozinho resolver a sua desgraça. Cada vez bebia mais. A família foi-se deteriorando. Ninguém o respeitava mais. Daí quando percebeu a que ponto chegou, já era tarde. Ninguém já não lhe respeitava mais como um chefe de família. E sim no deboche o chamava de “bigodão”.
Anos e anos após ao deslize de se deixar ceder pelos amigos e pelo álcool resolveu parar de beber. Não dava mais tempo. A doença já tinha se instalado e a idade não lhe ajudava mais sucumbiu deixando muitas saudades pela pessoa que era.
No auge do vício, Um certo “amigo” chegou a montar uma mini barraca para vender cachaça bem perto de sua casa para que ele se esbandalhasse todo o dia. Ele chegava tão embriagado em casa que certo dia deu uns tiros nos familiares. Por sorte ninguém saiu ferido.
Estava ali entregue a sorte, um homem que antes era exemplo de honestidade, bondade.
Quando eu o conheci, conversava muito com ele. Era uma pessoa agradável, gostava muito de falar sobre as histórias da Bíblia e de sua terra natal. Certa vez disse que gostava de mim porque eu lhe dava atenção e conversava consigo. Pois na verdade, os outros, pouco lhe dava atenção a não ser uma filha.
Este homem foi um senhor de posses. Quando ia passear com a família, alugava um táxi, coisa que só os endinheirados da época é que podiam fazer. Pois era um tipo de transporte muito caro para uma pessoa comum. Todos viviam bem financeiramente durante o período em que ele trabalhava e mantinha uma vida regrada.
Mas após o abuso do álcool, muita tristeza talvez, viu-se em desgraça desapontando a todos. Não teve coragem de pedir ajuda a quem quer que fosse para sair daquela frustração do desemprego e da falta de esperança.
Jamais um homem é por si só.

Somente Deus consegue isto.

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