terça-feira, 25 de agosto de 2015



Jornal da vida

Cada vez eu conto uma história


A HISTÓRIA DE UM HOMEM


Este jovem nasceu em abril de 1908. Descendente de imigrantes de Portugal, veio para o Nordeste do Brasil, mais precisamente no Estado de Alagoas, numa pequena cidade chamada de Porto da Rua. Aos 3 anos de idade seus pais faleceram por motivos estranhos. Não se sabe exatamente como foi, mas foram assassinados.
O rapaz e uma irmã foram criados separados sendo que ele foi para a casa de um tio que o tratou como um escravo segundo as suas próprias declarações.
Ele viveu a sua infância a trabalhar como um adulto a carregar pesos excessivos até o ponto de adoecer de uma hérnia umbilical. Quando não fazia aquilo que o tio exigia, era submetido a surras implacáveis até o ponto de não suportar mais e suas costas dilaceradas era banhada com água e sal para que evitasse inflamações posteriores. Quem lhe tratava das enfermidades era a sua tia que era a tia de verdade. Pois o tio nada mais era do que o marido da sua tia.
O tempo foi passando até que este jovem tornou-se um adolescente e foi crescendo, quando resolveu fugir do engenho em que morava e era submetido a trabalhos forçados e torturas.
Fugiu para Maceió, que devido as grandes dificuldades de locomoção naquele tempo, se tornava uma cidade longe de ser alcançado. A sua família não se importou e deixou que ele fosse embora.
Chegando lá em Maceió, Alagoas, procurou sozinho uma saída para a sua vida. Topou ser ajudante de balcão. Naquela época não havia carteira assinada de trabalho, não havia férias de 30 dias, enfim, não havia direitos dos trabalhadores. O rapaz decidido em procurar uma vida melhor, encarou o desafio.
Muito sofrimento sem onde morar, dormia num quarto alugado entre vários colegas de trabalho. Comia o que aparecesse, tal como sardinha enlatada com pão. Mas foi assim que ele começou a sua vida. Foi desafiando a si próprio e conquistando cada dia da sua vida.

Foi soldado do exército brasileiro, serviu no tempo necessário. Aprendeu a coisa mais importante para um homem. Disciplina, saber a hora de avançar e a hora de para. Saber aonde chegou a hora de mudar de direção.
Com muito sacrifício procurou estudar, pois era analfabeto praticamente. Passou uma grande parte da sua vida de jovem num navio pelo mundo afora, trabalhando e conhecendo o mundo. Conheceu toda a Europa, parte da Ásia e praticamente toda a América. O que lhe mais deu saudade foram as mulheres da Espanha. Guardou muitas lembranças que ficaram somente com ele que nunca quis contar mas o deixava saudoso.
 Foi para a escola e com os conhecimentos adquiridos fez um teste e com a ajuda de um amigo se empregou num banco. Que foi até a aposentadoria.
Homem, adulto, soube economizar dinheiro que lhe deu chance para comprar casas. Pois nunca morou em casa alugada, a não ser num quartinho quando jovem.
Conheceu uma jovem mulher com quem teve uma filha e mais adiante conheceu outra com quem teve quatro filhos, sendo que um morreu de meningite.
Sempre foi uma pessoa extremamente honesta. Sua honestidade era tal que servia de comentários entre os amigos.
Nas suas farras que não foram poucas, depois de casas, chegava em casa meio tocado e ia direto para cama só acordando no dia seguinte. Mesmo assim sempre foi cumpridor dos seus deveres como pai e marido.
Era de certa forma rude na criação dos filhos. Era muito rígido e não admitia nem que a criança gritasse dentro de casa. Quando estava conversando com adultos não admitia a presença de crianças por perto. Enfim, era a educação da época.
Sua vida nunca foi um mar de rosas. Sempre estava lutando contra uma dificuldade financeira ou contra uma doença. Os seus filhos tiveram doenças terríveis como Gripe espanhola, equisostomose e epilepsia. Mas felizmente todos ficaram posteriormente com saúde.
Nunca foi de andar em grupo. Não gostava de muita amizade e sempre dizia que: “Caranguejo por causa de amizade perdeu a cabeça.”
Não entendi a comparação, mas eu entendo que ele queria dizer que certas amizades, é melhor ficar só.
Dizia que o homem não devia andar rindo muito quando estivesse em grupo, com outros. Pois quem muito se abaixa o cu aparece.
Uma vez ou outra chamava uns dois “cabras” pra tomar um conhaque com caju, e aí pronto. Cada uma ia para a sua casa.
Nunca foi visto em bar ou boteco. Mas nuca deixou de tomar umas carraspanas vez ou outra. Só tinha um porém; nunca faltou nada em casa. A cachaça era dominada por ele. Nunca tentou afogar as mágoas na cachaça. Era sempre calado e conciso. Nunca vi chorando. E quando triste, baixava a cabeça apenas. Era um homem de ferro.
Não foi nenhum exemplo pra ninguém, pois tinha os seus defeitos com qualquer pessoa, mas nunca ninguém conseguiu apontá-lo na rua.

Um dia após muitos anos de vida foi embora daqui deixando somente lembranças de que foi um homem honesto e cumpridor dos seus objetivos.

A História de um Português

Nascido em Portugal na cidade do Porto veio ainda criança para o Brasil. Escolheu como cidade para morar o Recife. Talvez se tivesse escolhido mesmo, pois ainda era criança, não fosse o Recife.
Foi criado e educado por parentes portugueses. Deram-lhe a educação e o sotaque português. Foi criança e na sua adolescência estudou e trabalhou. Na verdade trabalhou mais do que estudou, pois não havia tempo nem hora como hoje temos. Não havia CLT, consequentemente, não havia leis trabalhistas. Todos os jovens que se dedicavam ao trabalho eram escorraçados pelos patrões e não podiam fazer nada. Muitos deles ameaçavam com violência. Diante da necessidade de trabalhar para o próprio sustento, estes jovens davam duro, quase escravos do seu patrão.
Feliz daquele que arranjava um emprego em que o patrão investia no empregado. Muitos destes se davam tão bem que as vezes se tornavam ricos tanto quanto o próprio patrão. Mas isso era coisa rara.
Um dia este jovem conseguiu um bom emprego. Trabalhava em uma casa de frios. Nome que se dá a empresas que vendem alimentos em conserva. Era aquele tipo de trabalho que tinha hora para começar mas nunca terminava na hora certa. Quem quisesse estudar que arranjasse alguém que investisse em tal atividade. Estudar era coisa de filhos de papai.
Mas aqueles que queriam se dar bem faziam das tripas coração. Deixavam os domingos de folga para se dedicarem aos estudos. O ensino naquela época exigia muito do aluno com cursos de 18 matérias. O aluno tinha que dar conta de História, Geografia, Física, Matemática, Português, Inglês, Francês, Latim, Grego, trabalhos manuais, Canto Orfeônico (música), religião, Ciências, Biologia, Química, Filosofia, Desenho, Descritiva, sendo que todas estas matérias eram essenciais, com provas orais e escritas e eram obrigados a passar em todas as matérias para passar de ano.
Com tudo isso os alunos conseguiam e passavam. Quem não queria estudar ficava para o serviço pesado. Como carregar açúcar.
Pois bem este jovem se dedicou ao trabalho e um pouco de estudo e quando adulto resolveu casar. Era seu sonho, como o de qualquer um cidadão naquela época; casar e ter muitos filhos. E foi assim que ele fez. Conseguiu uma jovem filha de um ricaço e casou-se.
Homem trabalhador e gostava muito do lar. Homem de certa forma ciumento. Não permitia muitos direitos a sua mulher. Mas a casa era cheia de alegria, havia dinheiro para mantê-la com o seu trabalho. E os filhos vieram como havia pensado. Muitos.
Mas como o destino é um caminho a percorrer sem reclamar. A sua mulher achava que o seu dinheiro era interminável. Usou e abusou tanto que este senhor perdeu o controle e após perder o emprego pela falência da firma, se entregou a bebida. Coisa que não era de seu feitio. Homem educado e cauteloso. Mas o poder do álcool é muito mais do que as suas forças, ele cedeu.
Fui-se degradando e se entregando cada vez mais ao vício. Não procurou um amigo ou alguém que o ajudasse a se levantar. Foi muito orgulhoso e achava que podia sozinho resolver a sua desgraça. Cada vez bebia mais. A família foi-se deteriorando. Ninguém o respeitava mais. Daí quando percebeu a que ponto chegou, já era tarde. Ninguém já não lhe respeitava mais como um chefe de família. E sim no deboche o chamava de “bigodão”.
Anos e anos após ao deslize de se deixar ceder pelos amigos e pelo álcool resolveu parar de beber. Não dava mais tempo. A doença já tinha se instalado e a idade não lhe ajudava mais sucumbiu deixando muitas saudades pela pessoa que era.
No auge do vício, Um certo “amigo” chegou a montar uma mini barraca para vender cachaça bem perto de sua casa para que ele se esbandalhasse todo o dia. Ele chegava tão embriagado em casa que certo dia deu uns tiros nos familiares. Por sorte ninguém saiu ferido.
Estava ali entregue a sorte, um homem que antes era exemplo de honestidade, bondade.
Quando eu o conheci, conversava muito com ele. Era uma pessoa agradável, gostava muito de falar sobre as histórias da Bíblia e de sua terra natal. Certa vez disse que gostava de mim porque eu lhe dava atenção e conversava consigo. Pois na verdade, os outros, pouco lhe dava atenção a não ser uma filha.
Este homem foi um senhor de posses. Quando ia passear com a família, alugava um táxi, coisa que só os endinheirados da época é que podiam fazer. Pois era um tipo de transporte muito caro para uma pessoa comum. Todos viviam bem financeiramente durante o período em que ele trabalhava e mantinha uma vida regrada.
Mas após o abuso do álcool, muita tristeza talvez, viu-se em desgraça desapontando a todos. Não teve coragem de pedir ajuda a quem quer que fosse para sair daquela frustração do desemprego e da falta de esperança.
Jamais um homem é por si só.

Somente Deus consegue isto.