terça-feira, 31 de dezembro de 2013

JORNAL DO DIA



JORNAL DO DIA


Olinda, 15 de outubro de 1788.

MOZART EM OLINDA

Acaba de atracar no Porto da cidade do Recife, a nau denominada Leopold. Esta embarcação que há dois dias se encontra nesta cidade, desembarcou o maestro e compositor Wolfgang Amadeus Mozart. Músico de renome internacional que muitos daqueles que foi a Europa já deve ter ouvido falar em suas obras. Ele já realizou alguns eventos iniciando no Theatro de Santa Isabel, com a apresentação de sua orquestra afinadíssima e de um esplendor incomparável.
Tem havido muita fluência de apreciadores da nova música, alegre e de um bom gosto incomparável.
A sua mais recente apresentação foi realizada ao ar livre como ele mesmo tomou a iniciativa e aconteceu um fato inusitado cujo resultado ficará gravado na sua história de regente.
O maestro Mozart, dirigiu-se para as ruas da cidade de Olinda ao norte da capital de Pernambuco e em uma daquelas belíssimas ruas da parte alta da cidade, em um pátio, diante de uma belíssima construção barroca de uma igreja Católica, resolveu ali instalar o corpo de sua orquestra.
Para que a população da referida cidade tivesse o prazer de ouvir as suas músicas não hesitou em executar a Sinfonia nº 40. Belíssima obra cujo esplendor é a alegria. Como nesta data também há uma festa pulular na parte baixa da cidade, mais precisamente na praia do Carmo, um grupo de músicos folclóricos de um maracatu passou diante da belíssima orquestra no momento em  que iniciava a execução da sinfonia.
Ora, foi de impressionar o fato ocorrido. O largo da igreja que ora abrigava a orquestra tornou-se o palco e a rua que descia para o bairro do Carmo, fez-se à platéia.
Já havia um número considerável de apreciadores e curiosos. Quem sabe se não eram mais de trezentas pessoas.
Uma multidão enfim.
O encontro de dois estilos musicais completamente adverso poderia chocar qualquer um que por acaso previsse o acontecimento do fato. Porém como foi um evento completamente ocasional, comoveu até o próprio maestro.
Quando a música iniciou os seus primeiros acordes, um dos músicos do maracatu, um preto velho, vestido com roupas características do seu meio, barbas longas e brancas, conduzia em uma das mãos um pequeno instrumento denominado maracá. Coisa de primitivo. Não se conteve e desembaiou ritmos cadenciais do seu instrumento no momento em que ouviu a beleza daquela música que nunca havia atravessado os seus tímpanos e talvez nem estivesse entendendo o que acontecia naquele momento.
Em seguida com todo aquele calor que fazia naquela tarde, os outros tocadores de tambor, um tambor de um diâmetro considerável e de uma sonorização grave e abrupta, disputou o alegro que ora invadia o ar. Achando pouco dentro da sua rude interpretação, eles emitiram um brado como se fossem para a guerra. Todos em volta fizeram um ar de censura mas sem indignação. Ninguém nem mesmo sabia o que estava acontecendo. O maestro Mozart virou-se discretamente, por sobre o seu ombro direito, fez um sinal de silêncio pondo o dedo em riste sobre a boca.
De fato não gritaram mais. Porém a partir daí ouve-se uma combinação do primitivo com o mais recente e mais moderno. A maracá na mão do velho que se vestia colorido, não só de corpo, mas de alma, se envolveu de tal forma com o que ouvia que não mais parou de agitar o seu instrumento.
Ele completou o ritmo da sinfonia e nas partes mais suaves, se destacava a beleza e suavidade deste glorioso encontro. Quando a música se elevava, os tamboristas desaguavam em uma sonoridade vibrante e vigorosa. Os tambores batiam que ecoavam em toda a cidade. O maestro ficou tão impressionado que já no fim da execução deixou a sua orquestra entregue ao destino e virou-se para o grupo de maracatu, para ver de perto aquilo que também ele não imaginava que existia.
Foi ao encontro do tocador de maracá e cumprimentou-o logo que a sua orquestre encerrou os últimos acordes em conjunto com o homem da maracá.
As pessoas batiam palmas incessantemente e ovacionavam um espetáculo que vai ficar na história da cidade de Olinda e na vida dos presentes.




Sidney Falcão (estória de ficção)

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