terça-feira, 31 de dezembro de 2013

EU E O TEATRO

  







(1º ato)









Em minha volta é só luz.

Eu num palco só, sem platéia.

Eu sou o ator e a platéia.

A cortina fechada, a música toca.

Começo a dançar:

Contorço o meu corpo como um feto no ventre

Sem forma, mas com prazer.

As portas do teatro estão fechadas

Só o silêncio e a música.

Somente eles tocam em meu coração.

O meu dançar é triste, é patético.

Vestido em cetim branco, transparente começo a pular.

A gritar, a sorrir, a chorar.

Me dispo!

Meu corpo é abraçado pela música que toca.

Ela me aperta.

Eu corro para as cadeiras e bato palmas!

Eu grito vivas! Bis!

Subo pelos degraus do palco,

Me curvo diante das cadeiras

E me volto a dançar.





(2º ato)





Corro de um canto a outro do palco.

Uma luz estoura.

Aquele estampido seco se mistura com a música: 'ploc'!

Os cacos de vidro caem no chão e se estilhaçam ainda mais

O fim de alguma coisa, a lâmpada.

Mas eu continuo a dançar.

Os vidros cortam-me os pés.

Mas eu continuo a dançar.

Giro mais ainda,

Meus pés sangram como se fosse meu coração.

Estou feliz, mas triste.

Eu quero ver alguém na platéia.

Só uma pessoa pelo menos.

Eu só, no meu corpo sem as vestes de cetim.

Corro, desço as escadas.

Sento-me em uma cadeira qualquer

Bato palmas! Viva!

Levanto-me, bato mais palmas!

Corro ao encontro das escadas

- Como eu amo estas escadas! -

Subo correndo,

Curvo-me novamente para as cadeiras

E agradeço a todas elas.

Pois não estou só, elas estão comigo...





(3º ato)





Volto a dançar e a me lembrar de você.

Você que eu não sei onde está.

Mas não ligo, continuo dançando.

Meus pés doem.

Não mais que meu coração.

Sim, uma coisa dentro de mim.

Que não sei explicar, mas aquela vontade...

De algo que me toque lá por dentro,

Que mexa comigo.

Continuo dançando:

Só me restam duas lâmpadas acesas.

Os estilhaços de vidro estão cada vez menores de tanto pisá-los.

Apalpo todo o meu corpo.

No rosto o meu canto de expressão.

No sexo a expressão do meu canto.

Um canto de amor...





(4º ato)





A música suave, mas expressiva a que ouço, a que exponho.

Eu grito:

"Quem quer um pouco de emoção?”.

“Quem vem dançar comigo?’”.

"Por que estou tão só aqui?”.

Outra luz se apaga e eu continuo a dançar.

Giro, rolo no chão, machuco a minha mão esquerda.

Estou molhado de suor, passo as mãos trêmulas no rosto.

Ajoelho-me, sento-me.

E caio de costas de braços abertos.

Levanto os braços lentamente, como a música pede.

Tento agarrá-la, mas ela foge-me ás mãos.

Faço movimentos rítmicos, rolo no chão, penso em você.

Como aquele sonho, volto a dançar.

Sou dono do palco, sou ator, sou platéia.

Só uma luz, não importa a cor - só uma luz...

Meus passos começam a tropeçar,

Meu coração a bater mais forte,

Eu penso:

Saudade, tristeza, - foi Deus quem fez?

Abraço-me mais ainda,

Aperto a minha perna dobrada,

E começo a beijá-la e a acariciá-la também.

Digo-lhe palavras doces.

A última luz se apaga, como a esperança que se vai.

Volto a pensar em tudo e em todos.

O palco marcado de meu sangue,

O teatro de meu choro e meu coração de mágoas.

Paro de dançar:

Choro, choro, choro...





Como eu queria alguém aí na platéia...Que batesse palmas pra mim:

Bate,... Bate,...Uma "veizinha" só...

Obrigado.

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